Eis uma típica questão formulada segundo a lógica formal, para a qual não há resposta possível dentro de seus limites. Isto é, a separação entre ordem e desordem, como se fossem duas situações estáticas que se alternam, não corresponde ao real movimento das coisas, à dinâmica do mundo. Por isso, a resposta do Hegel da Fenomenologia do Espírito, escrita em 1807 - momento em que sua dialética se apresenta rigorosa - extrapola esses limites, ao considerar a ordem pública como resultado das tensões da sociedade civil, ou seja, ao mostrar a ordem como produto da desordem, o público como resultado das lutas dos particulares. Temos aqui o Hegel que influenciou Marx, hegeliano de esquerda:
"O batimento do coração pelo bem-estar da humanidade passa pelo desdobramento de uma presunção demente, no furor da consciência para se preservar de sua própria destruição – e é assim, porque a consciência projeta para fora de si a perversão que é ela mesma, mas que, no entanto, se esforça de considerá-la e enunciá-la como um Outro. É então que a consciência denuncia a ordem universal como uma perversão da lei do coração e de sua felicidade(...). De um lado, na resistência que a lei de um coração particular sofre da parte de outros, essa ordem universal se mostra como a lei de todos os corações. As leis existentes são protegidas contra a lei de um só indivíduo, porque não são uma necessidade vazia e morta, privada de consciência, mas porque são uma universalidade espiritual e uma substância, na qual aqueles, em que essa substância tem sua realidade efetiva, vivem como indivíduos e são conscientes deles mesmos; assim, mesmo se eles se lamentam e se queixam dessa ordem universal, como estando em conflito com sua lei interior; mesmo se mantêm as aspirações do coração em face dessa ordem, de fato, estão com seus corações amarrados a essa ordem como a sua essência, e se essa ordem lhes forem arrebatada, ou se eles mesmos se excluem dela, perdem tudo. Uma vez que é nisso que consistem a realidade efetiva e a potência da ordem pública, essa ordem se manifesta como a essência igual a si mesma, universalmente vivificada, enquanto a individualidade se manifesta como a forma dessa ordem. De outro lado, essa ordem é igualmente o domínio da perversão.(...) O Universal, que está aqui presente, é somente uma resistência universal e um conflito de todas contra todos, onde cada um procura fazer valer sua própria singularidade, sem, no entanto, consegui-lo, dado que essa singularidade sofre a mesma resistência e é, por sua vez, dissolvida pelas outras singularidades. O que parece ordem pública é, portanto, essa hostilidade geral, na qual cada um tira para si o que pode, exerce a justiça à custa da singularidade de outro e consolida a sua própria singularidade, que, por sua vez, desaparece pela operação das outras. Essa ordem é o curso do mundo, a aparência de uma marcha regular e constante, mas que é somente uma universalidade em mira, cujo conteúdo é antes um jogo vazio da essência da consolidação e da dissolução mútua das singularidades" (La Phénoménologie de l’Esprit, I, trad. et notes J. Hyppolite, Aubier, pp. 309-311).
Na medida em que essa ordem jurídico-política seja imposta pela violência física ou psicológica, seus dirigentes vivem assolados pelo medo da morte e pelo sentimento de culpa, o que os tornam ainda mais violentos diante de seus reais ou hipotéticos inimigos, a fim de conjurar seus fantasmas. No texto abaixo, escrito em 1959, Elias Canetti atualiza o diálogo entre Sócrates e Polos, visto acima no Górgias de Platão, quando o primeiro demonstra ao segundo que o exercício do poder sem princípios volta-se contra os próprios governantes:
"(...) a ordem, sob a forma domesticada, corrente na coletividade dos homens, representa uma sentença de morte suspensa. Essa ordem se introduz em todos os sistemas eficazes e desenvolvidos. Aquele que é colocado rapidamente na direção de um desses sistemas (...) é um homem em que o medo de comandar habita junto à natureza mesma de sua posição, e que deve dela se livrar. A ameaça contínua, da qual ele se serve, e que constitui o caráter próprio desse sistema, retorna finalmente contra ele. Que ele seja ou não realmente ameaçado pelos inimigos, terá sempre o sentimento de sê-lo. (...) Seu medo de comandar toma dimensões que levam às catástrofes. Mas, antes que a castátrofe o atinja, (...) causará a perda de inúmeras outras vidas" (Masse et Puissance, trad. R. Rovini, Gallimard, p. 500).
Para Kant, a desordem tem um caráter pedagógico, sem o que jamais aprenderemos a ser livres. É o que abstraímos do texto a seguir, de 1793:
"Confesso não concordar com certos modos de falar, do qual se servem até pessoas de grande sabedoria: ‘tal povo (...) não é maduro para a liberdade’; ‘os servos de tal grande senhor não são ainda maduros para a liberdade’; ‘os homens, de uma maneira geral, não são ainda maduros para a liberdade de crença’. Ora, nessa hipótese, a liberdade nunca chegará, pois não se pode amadurecer para a liberdade senão na condição apriorística de se estar nela (é preciso ser livre para podermos usar como convém nossas faculdades na liberdade). É certo que os primeiros ensaios serão grosseiros e que, ordinariamente, serão atados a um estado de coisas mais sofrível e perigoso que aquele em que se vive sob as ordens de outrem, mas também sob sua proteção; somente poderemos amadurecer mediante ensaios pessoais" (La religion dans les limites de la simple raison, IVème partie, 2 section, §4, note 1, trad. Tremesaygues, PUF, 1913, p. 230).
No final das contas, para Kant temos a temer a ordem ou a desordem, sempre quando ameaçarem a liberdade, isto é, a autonomia da razão, a capacidade do indivíduo determinar-se conforme sua vontade, segundo uma lei universal. Por esse motivo, para Marx, tanto a ordem do Estado burguês como a desordem de sua economia devem ser varridos da história por uma revolução social, por existirem em função da exploração do homem pelo próprio homem: o novo homem deve ser gestado, portanto, corajosamente nas lutas sociais.