A disputa entre os filósofos é a luta amorosa da coisa mesma (Heidegger).

Saturday, September 16, 2006

VI. A exploração é condição de toda sociedade?

Apesar de afirmar que não somos criadores de relações sociais, mas, ao contrário, nós é que somos criados por elas, Marx não é um apologeta da passividade. Devido ao seu modo dialético de pensar, não podemos ler Marx a partir de afirmações isoladas. De fato, o autor de O Capital crê na possibilidade de transformações sociais, no papel do sujeito, mas só na medida em que este exerça sua energia revolucionária com base nas condições materiais, dadas pelo movimento histórico. Em outros termos, a luta pela liberdade não pode perder o contato com a realidade, isto é, com a necessidade, como aduzira Sartre (vide texto acima). Eis o grande ponto de embate de Marx com os anarquistas, que não admitiam nenhum condicionamento material para suas bandeiras. No texto abaixo, escrito em 1848, com Friedrich Engels, Marx reconhece a força revolucionária da burguesia, mas profetiza o seu fim, pois seu papel histórico já caducou, desde o momento em que se tornou um entrave para o progresso da humanidade:

"Todas as sociedades passadas repousavam (...) sobre o antagonismo entre classes opressoras e classes oprimidas. A existência e a dominação da classe burguesa têm por condição essencial a acumulação da riqueza nas mãos de particulares, a formação e o crescimento do capital; e a condição do capital é o assalariado. (...) O progresso da indústria, do qual a burguesia é o agente (...), substitui o isolamento dos trabalhadores - causado pela concorrência - pela sua união revolucionária, mediante a associação. Com o desenvolvimento da grande indústria, a burguesia vê, então, fugir de seus pés o fundamento mesmo sobre o qual ela produz e se apropria dos produtos. Ela produz, antes de tudo, seus próprios coveiros. A queda da burguesia e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis. (Manifeste du Parti Communiste, trad. J. Molitor, ed. Costes, 1953).

Em Miséria da filosofia, texto de 1847, Marx propugna o fim da política, como conseqüência do fim da dominação de classe, pois aquela não passa de um mecanismo que a classes têm de lutarem entre si, com o que se reproduzem os antagonismos da sociedade civil nos aparelhos de Estado.

"(...) após a queda da antiga sociedade haverá uma nova dominação de classe, se resumindo num novo poder político? Não. A condição da liberação da classe trabalhadora é a abolição de toda classe, assim como a condição de liberação do Terceiro Estado, da ordem burguesa, foi a abolição de todos os estados e de todas as ordens. A classe trabalhadora substituirá, no curso de seu desenvolvimento, a antiga sociedade civil por uma associação que excluirá as classes e seu antagonismo, e não haverá mais poder político propriamente dito, uma vez que o poder político é precisamente o resumo oficial do antagonismo na sociedade civil. Enquanto isso, o antagonismo entre o proletariado e a burguesia é uma luta de classe contra classe, luta que, levada à sua mais alta expressão, é uma revolução total. A propósito, é motivo de espanto que uma sociedade, fundada sobre a oposição das coisas, resulte numa contradição brutal, num choque de corpos contra corpos como último desdobramento? (...) Somente numa ordem de coisas em que não haverá mais classes e antagonismo entre elas, as evoluções sociais cessarão de ser revoluções políticas. Até lá, às vésperas de cada remanejamento total da sociedade, a última palavra da ciência social será sempre: ‘o combate ou a morte; la luta sanguinária ou o nada. É assim que a questão é inevitavelmente posta’ (Georges Sand)" [Misère de la philosophie, trad. H. Mougin. Ed. Sociales, 1947, pp. 135-136].


Em outros termos, o reino da política - e do direito - é o o reino da conservação dos antagonismos já existentes no mundo concreto, na vida das pessoas. A política é a relação das forças já existentes no campo sócio-econômico, em que as lutas se dão com regras próprias, circunscritas nos limites do sistema, definidos pelo direito público e privado. É impossível, portanto, as relações sociais serem transformadas a partir da política, pois esta é, precisamente, o entrave para a evolução da sociedade. Somente uma revolução social poderá recolocar as novas bases de um direito e de uma política do futuro, não mais voltados a canalizar o jugo do homem por ele próprio.

Numa linha oposta a de Marx, Nietzsche, no texto abaixo, escrito em 1886, visivelmente influenciado pela ciência darwinista da vida, desfere um duro golpe contra os marxistas e todos os que alimentam desejos utópicos de uma sociedade sem classes, reconciliada com a idéia de justiça e seus princípios da igualdade, fraternidade e liberdade:

"É preciso ir ao fundo das coisas e se abster de toda fraqueza de sentimentos: viver, é essencialmente despojar, ferir, violentar o fraco e o estrangeiro, oprimi-lo, impor-lhe duramente suas formas próprias, assimilá-lo ou, ao menos (é a solução mais delicada), explorá-lo; mas porque usar sempre essas palavras, nas quais há muito se lhes imprime um sentido calunioso? A corporação, na qual (...) os indivíduos se tratam igualmente – é o caso em toda aristocracia sadia – é ela mesma obrigada, se é viva e não doente, de fazer contra outros corpos o que os indivíduos, que a compõem, se abstém de fazer entre eles. Enquanto vontade de poder encarnada, desejará crescer e se expandir, açambarcar, conquistar a preponderância, não por quaisquer razões morais ou imorais, mas porque vive, e porque a vida, precisamente, é vontade de dominação. Mas a consciência coletiva dos Europeus não se deixa convencer. A moda é de se deixar levar a toda sorte de ilusões, algumas paramentadas de cores científicas, que pintam um estado futuro da sociedade sem ‘exploração’. Isso ressona em meus ouvidos como se prometessem inventar uma forma de vida que se abstivesse de toda função orgânica. A ‘exploração’ não é decorrente de uma sociedade corrompida, imperfeita e primitiva; ela é inerente à natureza mesma da vida, é a função orgânica primordial, uma conseqüência da vontade de potência propriamente dita, que é a vontade da vida. A supor que isso seja uma teoria nova, é, em verdade, o fato primordial de toda a história, tenhamos a honestidade de reconhecê-lo" (Par-delà le bien et le mal, §259, trad. G. Bianquis, UGE, 10/18, 1970).

Há alguma possibilidade de diálogo entre Marx e Nietszche? Enquanto pensador, Marx localiza em toda a sociedade de classes, após o comunismo primitivo, essa exploração da qual Nietzsche fala. Na obra O Capital Marx estuda a exploração específica da sociedade burguesa e não alimenta nenhuma ilusão com relação a ela, que deve desaparecer da história para que a vida tenha lugar.

Nesse sentido, Marx tenta mobilizar a vontade revolucionária (vontade de potência?) para a criação de um mundo novo. Aliás, a vontade em Nietzsche não é vontade criativa, sem nenhum compromisso com a conservação da história passada? No entanto, enquanto Nietzsche parece absolutizar a idéia de exploração, resignando-se com o mundo do ser - o que seria uma contradição com sua idéia de vontade ativa - , Marx nos passa a idéia de uma vontade mais inquieta, não satisfeita com o mundo objetivo, a ponto de incendiar os fracos para que se tornem fortes e façam a revolução social, sob pena de sucumbirem.

Marx, assim, não nega a vontade de dominação (do proletariado sobre a burguesia), pelo contrário, a destitui de todo moralismo, ao admitir a necessidade da violência revolucionária como vontade de afirmação da vida. Por fim, para suas idéias, Marx não busca o modelo na biologia, mas na vida mesma enquanto arranjo social e histórico.

Se Marx pode ser uma espécie de corretivo para o subjetivismo de Nietzsche, este, seguramente, é de enorme importância para corrigir o excesso de otimismo de Marx, muito evidente em seus textos práticos, de militante. Por outro lado, Nietzsche dirige seu ataque contra o espírito mesmo do homem burguês, alvo pouco explorado por Marx.

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