A disputa entre os filósofos é a luta amorosa da coisa mesma (Heidegger).

Wednesday, November 01, 2006

XII. Guerra: troca entre os homens?

Se compreendermos o mundo civilizado como o mundo do recalque necessário do princípio do prazer, em que nossa agressividade animal, bem como nossa energia libidinal é sublimada na cultura e no trabalho, podemos perguntar: o que é feito dessa energia pré-civilizatória? Ela foi completamente domada pelo homem jurídico-político? Ou será que o mundo da cultura é o mundo do tédio, como já alertara Freud, que precisa ser sacudido pelos conflitos bélicos?

Do fragmento abaixo de Elias Canetti, escrito em 1959, extraímos que o advento da guerra no mundo civilizado é o retorno do desejo de dominação exclusiva do um sobre muitos, do mesmo sobre a diversidade, do chefe arcaico onipotente e narcisista sobre a horda:

"Nas guerras (...) trata-se de matar em massa. De abater o maior número possível de inimigos; a perigosa massa de inimigos vivos será transformada num montão de mortos. O vencedor, o que terá matado o maior número de inimigos. É a massa crescente de vizinhos, bem como seu inquietante crescimento, que desperta a oposição na guerra. É essa ameaça, contida na ampliação mesma do número desses vizinhos, que deslancha a agressividade da própria massa, a qual se lança na guerra. Quando se faz a guerra, procura-se sempre ser superior, submeter o grupo mais numeroso e explorar por todos os meios a fraqueza do adversário, antes que este aumente em quantidade.(...) deseja-se ser a massa de vivos mais numerosa, contanto, que haja do outro lado o maior número de mortos. Nessa competição entre massas crescentes acha-se uma das razões essenciais, talvez a mais profunda, de toda guerra. Também pode-se fazer de mulheres e crianças escravos, em vez de mortos, de modo a aumentar o número da massa, mas a guerra só é verdadeira se seu fim for a morte de uma grande porção de inimigos (Masse et puissance, trad. Rovini, N.R.F, pp. 69-70).

Revelando-se como legítimo estrategista do manejo dessa pulsão de morte, Carl Von Clausewitz, num texto clássico de 1832, define a guerra como a própria política realizada por outros meios:

"Percebe-se em qual erro cairíamos se, ao considerarmos a guerra entre os Estados civilizados como um ato refletido dos governos, imaginássemos que ela vai progressivamente se livrando de sua violência e rudeza; que chegaria um dia a prescindir das massas armadas e resolver os conflitos entre as nações pela equação algébrica de suas relações. (...)

Bem que a guerra seja um ato de força, o cálculo aí também tem seu papel. A guerra não é produto do cálculo, mais ela o utiliza mais ou menos; e esse mais ou menos não depende do grau de civilização, mas da importância e da duração dos interesses em litígio. Se, na civilização, os povos não massacram mais seus prisioneiros, não devastam mais seus campos nem pilham suas cidades, é porque a inteligência preside a conduta de suas guerras, e põe ao serviço da sua força meios mais eficazes que as manifestações brutais do instinto. (...)

Repetimos, no entanto, nossa proposição: a guerra é um ato violento, no qual o emprego da força sendo ilimitado, cada um dos dois adversários impõe ao outro sua lei, de onde resulta uma influência recíproca que, de um lado e de outro, deve levar ao extremo. (...)

Todos sabem que a guerra é uma das conseqüências das relações políticas entre os governos e os povos, mas, geralmente, se imagina que essas relações cessam por causa da guerra e que se estabelece um estado de coisas especial, regido por leis particulares. Afirmamos, ao contrário, que a guerra é a continuação do comércio político com a intervenção de outros meios. (...) é um meio mais enérgico de exprimir o pensamento político (...)" (Théorie de la Grande Guerre, trad. De Vatry, Ed. Baudoin, introduction, pp. 3-7;163-165).

Talvez se o homem moderno não fosse tão adestrado à uma vida coisificada, reprimida e passiva, com o que o próprio corpo é aprisonado por um pensamento completamente administrado pelas coisas, numa palavra, uma vida sem riscos e surpresas, não precisássemos fugir do tédio através de guerras tão destruidoras, sob pretextos políticos. Haveria outras formas de canalizarmos nossa pulsão mortífera original (democracia direta, fim da divisão entre trabalho manual e intelectual, trabalho livre, tempo livre para a arte, lazer e esporte, desgenitalização das relações humanas, etc) , quando a guerra entre escravos se converteria em conflitos humanos, assumindo um papel terapêutico, não ameaçador da espécie. A guerra no mundo burguês em que vivemos ultrapassou e muito essa linha da troca, seu objetivo é a exclusão do outro e o suicídio individual e coletivo. Eis alguns requisitos para que a lógica do direito se afaste da lógica da política vigente e se aproxime da lógica do sensível, momento em que a ciência política cede o passo à estética.

1 Comments:

Blogger Isaias Malta said...

Há vida inteligente no planeta dos Blogs diaristas, repletos de confissões patéticas e muito mal escritos? Sim, este laboratório é a prova de que das provetas WEB podem surgir luzes, até as da filosofia. Parabéns professor por dares a nós a possibilidade de lê-lo. http://pireu.blogspot.com

5:41 PM

 

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