A disputa entre os filósofos é a luta amorosa da coisa mesma (Heidegger).

Wednesday, November 01, 2006

XIII. Guerra: fator de civilização?


Ora, se ainda há algum futuro para a civilização, não o atingiremos pelas guerras, pois a idéia de guerra é totalmente oposta à idéia de sociedade. A utopia da civilização é exatamente o contrário do topos em que nos encontramos, ou seja, enquanto as guerras existirem, não poderemos reivindicar para nós o estatuto de civilizados. Como dissera Kant em suas reflexões sobre a história, em 1786:

"(...) os maiores males que assolam o mundo civilizado nos são causados pela guerra, não tanto apenas pela que efetivamente existe ou existiu, mas pelos seus preparativos incessantes (...). No entanto, no grau de cultura em que nos encontramos, a guerra é um meio indispensável para aperfeiçoá-la ainda; e não é senão após a completude dessa cultura (Deus sabe quando) que uma paz eterna nos será salutar e se tornará possível” (Conjectures sur le débuts de l’histoire humaine, in La Philosophie de l’histoire, trad. S. Piobetta, Aubier, p. 169).


De fato, esse aperfeiçoamento tem se dado no desenvolvimento das tecnologias, que só indiretamente e de modo insuficiente tem revertido para o conforto de uns poucos. Tem prevalecido, ao contrário, o desenvolvimento de tecnologias da morte cada vez mais frias, rápidas e limpas e com um potencial destruidor nunca sonhado pelos nossos antepassados, nem mesmo por Kant, ainda otimista no texto acima.

Diferentemente de Kant, Hegel com um tom justificador de filósofo da história, concebe a guerra como momento necessário de afirmação do espírito absoluto. Para ele, por exemplo, Napoleão era o próprio espírito absoluto à cavalo. Esse é o Hegel da Filosofia do Direito, ideológico, bem menos dialético que o Hegel da Fenomenologia do Espírito:

“A guerra (...) é o momento em que a idealidade do ser particular recebe o que lhe é devido e torna-se uma realidade; (...) por ela ‘a saúde moral dos povos é mantida em sua indiferença (...) assim como os ventos protegem o mar contra a preguiça, na qual seria imergido por uma tranqüilidade durável, da mesma forma que uma paz durável e eterna nela submergeria os povos” (Principes de la philosophie du droit, §324, Gallimard, trad. A. Kaan, pp. 354-355).

Aqui, Hegel filosofa para os vencedores, os universais, em detrimento dos que perderam a carruagem da história. Afinal, para Hegel, o Estado moderno é a própria encarnação do espírito absoluto, da liberdade, o que lhe valeu contundentes críticas de Marx, no opúsculo Crítica da filosofia do direito de Hegel.

XII. Guerra: troca entre os homens?

Se compreendermos o mundo civilizado como o mundo do recalque necessário do princípio do prazer, em que nossa agressividade animal, bem como nossa energia libidinal é sublimada na cultura e no trabalho, podemos perguntar: o que é feito dessa energia pré-civilizatória? Ela foi completamente domada pelo homem jurídico-político? Ou será que o mundo da cultura é o mundo do tédio, como já alertara Freud, que precisa ser sacudido pelos conflitos bélicos?

Do fragmento abaixo de Elias Canetti, escrito em 1959, extraímos que o advento da guerra no mundo civilizado é o retorno do desejo de dominação exclusiva do um sobre muitos, do mesmo sobre a diversidade, do chefe arcaico onipotente e narcisista sobre a horda:

"Nas guerras (...) trata-se de matar em massa. De abater o maior número possível de inimigos; a perigosa massa de inimigos vivos será transformada num montão de mortos. O vencedor, o que terá matado o maior número de inimigos. É a massa crescente de vizinhos, bem como seu inquietante crescimento, que desperta a oposição na guerra. É essa ameaça, contida na ampliação mesma do número desses vizinhos, que deslancha a agressividade da própria massa, a qual se lança na guerra. Quando se faz a guerra, procura-se sempre ser superior, submeter o grupo mais numeroso e explorar por todos os meios a fraqueza do adversário, antes que este aumente em quantidade.(...) deseja-se ser a massa de vivos mais numerosa, contanto, que haja do outro lado o maior número de mortos. Nessa competição entre massas crescentes acha-se uma das razões essenciais, talvez a mais profunda, de toda guerra. Também pode-se fazer de mulheres e crianças escravos, em vez de mortos, de modo a aumentar o número da massa, mas a guerra só é verdadeira se seu fim for a morte de uma grande porção de inimigos (Masse et puissance, trad. Rovini, N.R.F, pp. 69-70).

Revelando-se como legítimo estrategista do manejo dessa pulsão de morte, Carl Von Clausewitz, num texto clássico de 1832, define a guerra como a própria política realizada por outros meios:

"Percebe-se em qual erro cairíamos se, ao considerarmos a guerra entre os Estados civilizados como um ato refletido dos governos, imaginássemos que ela vai progressivamente se livrando de sua violência e rudeza; que chegaria um dia a prescindir das massas armadas e resolver os conflitos entre as nações pela equação algébrica de suas relações. (...)

Bem que a guerra seja um ato de força, o cálculo aí também tem seu papel. A guerra não é produto do cálculo, mais ela o utiliza mais ou menos; e esse mais ou menos não depende do grau de civilização, mas da importância e da duração dos interesses em litígio. Se, na civilização, os povos não massacram mais seus prisioneiros, não devastam mais seus campos nem pilham suas cidades, é porque a inteligência preside a conduta de suas guerras, e põe ao serviço da sua força meios mais eficazes que as manifestações brutais do instinto. (...)

Repetimos, no entanto, nossa proposição: a guerra é um ato violento, no qual o emprego da força sendo ilimitado, cada um dos dois adversários impõe ao outro sua lei, de onde resulta uma influência recíproca que, de um lado e de outro, deve levar ao extremo. (...)

Todos sabem que a guerra é uma das conseqüências das relações políticas entre os governos e os povos, mas, geralmente, se imagina que essas relações cessam por causa da guerra e que se estabelece um estado de coisas especial, regido por leis particulares. Afirmamos, ao contrário, que a guerra é a continuação do comércio político com a intervenção de outros meios. (...) é um meio mais enérgico de exprimir o pensamento político (...)" (Théorie de la Grande Guerre, trad. De Vatry, Ed. Baudoin, introduction, pp. 3-7;163-165).

Talvez se o homem moderno não fosse tão adestrado à uma vida coisificada, reprimida e passiva, com o que o próprio corpo é aprisonado por um pensamento completamente administrado pelas coisas, numa palavra, uma vida sem riscos e surpresas, não precisássemos fugir do tédio através de guerras tão destruidoras, sob pretextos políticos. Haveria outras formas de canalizarmos nossa pulsão mortífera original (democracia direta, fim da divisão entre trabalho manual e intelectual, trabalho livre, tempo livre para a arte, lazer e esporte, desgenitalização das relações humanas, etc) , quando a guerra entre escravos se converteria em conflitos humanos, assumindo um papel terapêutico, não ameaçador da espécie. A guerra no mundo burguês em que vivemos ultrapassou e muito essa linha da troca, seu objetivo é a exclusão do outro e o suicídio individual e coletivo. Eis alguns requisitos para que a lógica do direito se afaste da lógica da política vigente e se aproxime da lógica do sensível, momento em que a ciência política cede o passo à estética.