Especificidade do conhecimento filosófico
Por Selvino Assmann:
"Vamos insistir ainda mais em compreender o que é a filosofia, embora possamos afirmar que só sabe bem o que é filosofar quem realmente o faz. Com a pensadora brasileira Marilena Chauí, que nos serve de apoio para várias observações feitas nestas páginas, podemos dizer que, do ponto de vista mais específico, a filosofia se apresenta com quatro definições gerais:
► em primeiro lugar, falamos de visão de mundo de um povo, de uma cultura. Visão de mundo é um conjunto de ideias, de valores e de hábitos práticos de um povo, que fazem com que se defina uma identidade do povo. Mas definir assim a Filosofia nos faz confundi-la com cultura, o que não convém;
► em segundo lugar, identifica-se a filosofia com a sabedoria de vida, ou como “filosofia de vida”. Neste caso provavelmente incluiríamos como “filosofias” o Budismo, o Cristianismo, e não conseguiríamos distinguir entre filosofia e religião, o que também não convém;
► em terceiro lugar, filosofia é esforço racional, sistemático, rigoroso, para conceber o Universo como uma totalidade ordenada e dotada de sentido (CHAUÍ, 1995, p. 16). E esta definição corresponde mais claramente com a História da Filosofia. Assim conseguimos perceber a diferença entre religião e filosofia. Aquela tem por base a fé, pela qual se aceitam verdades não demonstráveis e que tantos considerarão até mesmo irracionais. Claro que isso não significa que, sob todos os pontos de vista, as verdades de fé não sejam aceitáveis, ou até mesmo razoáveis, como tentou fazer um pensador da qualidade de Tomás de Aquino, que se esforçou por mostrar que as verdades cristãs não eram contrárias à razão;
e
► em quarto lugar, a filosofia é admitida como fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas (CHAUÍ, 1995, p. 17): ela preocupa-se costumeiramente com os princípios do conhecimento (por exemplo, do conhecimento científico, o que chama- mos epistemologia ou teoria do conhecimento científico), com a origem, a forma e os conteúdos dos valores éticos, políticos e estéticos.
Assim, a filosofia é reflexão, é crítica, e é análise. Mas isso não a torna sinônimo de ciência, mas uma reflexão crítica sobre a ciência; não a torna uma religião, mas uma análise crítica sobre o sentido da experiência religiosa e sobre a origem das crenças; nem a identifica com a psicologia, com a sociologia, a história ou a ciência política, por mais que estas ciências do fenômeno humano tenham parentesco histórico com ela. Neste caso, se costuma dizer que as ciências humanas (e as ciências em geral) estudam “o quê” e o “como” dos fenômenos, enquanto a filosofia estuda o “porquê” e o “que é”, os conceitos."

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