A disputa entre os filósofos é a luta amorosa da coisa mesma (Heidegger).

segunda-feira, abril 11, 2022

Filosofia antiga

 

Por Selvino Assmann:

"Já falamos da Filosofia Antiga, e ainda vamos falar a respeito de Sócrates e Platão. Costumeiramente, admitem-se três fases na história da filosofia Antiga, que aconteceram sobretudo em Atenas e, depois, em Roma:

► o período pré-socrático ou cosmológico, em que a filosofia se ocupa principalmente com a origem do mundo e as causas das transformações da natureza;

► o período socrático ou antropológico, ocorrido entre o final do Século V até o final do Século IV a.C., cujas figuras principais são Sócrates, Platão e Aristóteles, em que o objeto de estudo da filosofia passa a ser o homem, sua vida política e moral, e sua capacidade de conhecer as coisas; e

► o período helenístico ou greco-romano, entre o final do Século III a. C até o Século II d. C, quando começa a consolidar-se a supremacia da visão cristã, sobretudo com o pensamento de Santo Agostinho. Neste período, deixa-se de acreditar em soluções mais coletivas para a vida humana e se começa a introduzir uma saída individual, consolidando-se uma nova ética e uma política que deixa de ser vista como boa. É o período em que predominam as doutrinas dos estoicos, dos epicuristas e dos céticos. Neste período, as doutrinas filosóficas helenísticas deixaram de ter sua sede em Atenas, e Roma passara a ser o lugar em que tais doutrinas continuaram consolidando-se e modificando-se.

De toda maneira, as doutrinas helenísticas (estoicismo, epicurismo e ceticismo) têm sido cada vez mais reconhecidas como importantes para se compreender a passagem gradual do predomínio da cidade e da comunidade, para o predomínio do indivíduo. Para Platão e Aristóteles, o ser humano realiza-se unicamente como membro da comunidade política, como cidadão, e não pode conseguir a felicidade individualmente. Com o fim da autonomia das cidades gregas, e com o surgimento do império macedônico, através de Felipe e Alexandre Magno, a cidade deixa de ser o lugar principal de realização humana – até pela distância que ocorre entre governantes e governados – e surge a ideia da igualdade de todos os seres humanos e a concomitante ideia de indivíduo, ser isolado da comunidade e que passa a ser encarregado individualmente pela sua realização e felicidade.

Neste contexto, podemos afirmar que a ideia de uma fraternidade universal nasce antes do Cristianismo, mas com um objetivo político: se todos são iguais, todos estarão submetidos da mesma forma à mesma lei do império. Com o Cristianismo, surgirá uma fraternidade com outro sentido: todos são filhos do mesmo Deus, e por isso os seres humanos são irmãos e como tais ficarão submetidos aos mandamentos de Deus, e não do único imperador. É neste período que surge também o conceito de lei natural, que servirá tanto para os cristãos (mostrando que é possível seguir a lei natural e obter a salvação eterna quando alguém não fosse formalmente um cristão) quanto para os modernos (sobretudo a Teoria do Contrato Social, que tem por base a distinção entre estado de natureza e estado civil). Se pensarmos mais no início da tradição cristã, importa lembrar o debate entre os Padres, nome dado aos teólogos de tradição oriental (patrística oriental) e àqueles de tradição greco-latina (patrística ocidental).

Os teólogos e pastores de tradição grega e latina lutam – e discutem muito entre si e não só contra os não-cristãos – para que o Cristianismo como instituição, que estabelece sua sede em Roma, passe a adotar a racionalidade grega a fim de conseguir convencer e converter pagãos à nova verdade, mesmo que a doutrina original de Jesus Cristo tivesse sido apresentada nos moldes da cultura oriental, ou melhor, na sua vertente semita. Veja um exemplo: na tradição oriental, não é possível separar o corpo e alma. Sendo assim, quando alguém morria, era considerado morte do ser humano inteiro, e não apenas o corpo; e isso era admitido também pelos primeiros cristãos de tradição oriental. Já de acordo com a mentalidade dualista grega, só morria o corpo, como se pensa até hoje entre nós. E ambos eram cristãos. Naquele tempo, portanto, um cristão que dissesse que quando se morre, morre também a alma, não deixaria de ser considerado cristão! Foi nos primeiros séculos do Cristianismo que se decidiu, aos poucos, como dogma, a separação entre corpo e alma, o que constitui a vitória da tradição greco-romana no Cristianismo. A figura mais importante para que isso acontecesse foi São Paulo, o apóstolo de formação grega, que convenceu Pedro a estabelecer-se em Roma, sede do Império Romano, como chefe da nova comunidade religiosa.

Houve assim – poderíamos dizer – uma racionalização de uma verdade religiosa, racionalização que se tornou fundamental para a história da Idade Média, mas também da Idade Moderna. E a teologia, “ciência sobre Deus”, é sinal desta racionalização. Isso fez com que os teólogos mostrassem que acreditar em Deus não vai contra a razão, mas combina com ela. E também contribuiu para que um filósofo moderno como Hegel dissesse que a modernidade é a definitiva realização do Cristianismo, e não a ruptura com este, conforme costumamos dizer ao apresentarmos a Idade Média como Idade das Trevas."