A disputa entre os filósofos é a luta amorosa da coisa mesma (Heidegger).

segunda-feira, abril 11, 2022

A physis dos filósofos pré-socráticos

 Os primeiros filósofos gregos a sair da caverna do senso comum, da ignorância e dos dogmas foram os pré-socráticos, no século VI antes da era cristã. E o que viram foram da caverna? A physis! Mas o que é mesmo a physis

“A palavra physis indica aquilo que por si brota, se abre, emerge, o desabrochar que surge de si próprio e se manifesta neste desdobramento, pondo-se no manifesto (...). Em nossos dias, a natureza se contrapõe ao psíquico, ao anímico, ao espiritual, qualquer que seja o sentido que se empreste a estas palavras. Mas para os gregos, mesmo depois do período pré-socrático, o psíquico também pertence à physis (...). A physis compreende a totalidade de tudo que é. Ela pode ser apreendida em tudo o que acontece: na aurora, no crescimento das plantas, no nascimento de animais e homens. (...) À physis pertencem o céu e a terra, a pedra e a planta, o animal e o homem, o acontecer humano como obra do homem e dos deuses, e, sobretudo, pertencem à physis os próprios deuses” (Bornheim, Gerd. Os  filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrix, 1999, p. 14).

Filosofia antiga

 

Por Selvino Assmann:

"Já falamos da Filosofia Antiga, e ainda vamos falar a respeito de Sócrates e Platão. Costumeiramente, admitem-se três fases na história da filosofia Antiga, que aconteceram sobretudo em Atenas e, depois, em Roma:

► o período pré-socrático ou cosmológico, em que a filosofia se ocupa principalmente com a origem do mundo e as causas das transformações da natureza;

► o período socrático ou antropológico, ocorrido entre o final do Século V até o final do Século IV a.C., cujas figuras principais são Sócrates, Platão e Aristóteles, em que o objeto de estudo da filosofia passa a ser o homem, sua vida política e moral, e sua capacidade de conhecer as coisas; e

► o período helenístico ou greco-romano, entre o final do Século III a. C até o Século II d. C, quando começa a consolidar-se a supremacia da visão cristã, sobretudo com o pensamento de Santo Agostinho. Neste período, deixa-se de acreditar em soluções mais coletivas para a vida humana e se começa a introduzir uma saída individual, consolidando-se uma nova ética e uma política que deixa de ser vista como boa. É o período em que predominam as doutrinas dos estoicos, dos epicuristas e dos céticos. Neste período, as doutrinas filosóficas helenísticas deixaram de ter sua sede em Atenas, e Roma passara a ser o lugar em que tais doutrinas continuaram consolidando-se e modificando-se.

De toda maneira, as doutrinas helenísticas (estoicismo, epicurismo e ceticismo) têm sido cada vez mais reconhecidas como importantes para se compreender a passagem gradual do predomínio da cidade e da comunidade, para o predomínio do indivíduo. Para Platão e Aristóteles, o ser humano realiza-se unicamente como membro da comunidade política, como cidadão, e não pode conseguir a felicidade individualmente. Com o fim da autonomia das cidades gregas, e com o surgimento do império macedônico, através de Felipe e Alexandre Magno, a cidade deixa de ser o lugar principal de realização humana – até pela distância que ocorre entre governantes e governados – e surge a ideia da igualdade de todos os seres humanos e a concomitante ideia de indivíduo, ser isolado da comunidade e que passa a ser encarregado individualmente pela sua realização e felicidade.

Neste contexto, podemos afirmar que a ideia de uma fraternidade universal nasce antes do Cristianismo, mas com um objetivo político: se todos são iguais, todos estarão submetidos da mesma forma à mesma lei do império. Com o Cristianismo, surgirá uma fraternidade com outro sentido: todos são filhos do mesmo Deus, e por isso os seres humanos são irmãos e como tais ficarão submetidos aos mandamentos de Deus, e não do único imperador. É neste período que surge também o conceito de lei natural, que servirá tanto para os cristãos (mostrando que é possível seguir a lei natural e obter a salvação eterna quando alguém não fosse formalmente um cristão) quanto para os modernos (sobretudo a Teoria do Contrato Social, que tem por base a distinção entre estado de natureza e estado civil). Se pensarmos mais no início da tradição cristã, importa lembrar o debate entre os Padres, nome dado aos teólogos de tradição oriental (patrística oriental) e àqueles de tradição greco-latina (patrística ocidental).

Os teólogos e pastores de tradição grega e latina lutam – e discutem muito entre si e não só contra os não-cristãos – para que o Cristianismo como instituição, que estabelece sua sede em Roma, passe a adotar a racionalidade grega a fim de conseguir convencer e converter pagãos à nova verdade, mesmo que a doutrina original de Jesus Cristo tivesse sido apresentada nos moldes da cultura oriental, ou melhor, na sua vertente semita. Veja um exemplo: na tradição oriental, não é possível separar o corpo e alma. Sendo assim, quando alguém morria, era considerado morte do ser humano inteiro, e não apenas o corpo; e isso era admitido também pelos primeiros cristãos de tradição oriental. Já de acordo com a mentalidade dualista grega, só morria o corpo, como se pensa até hoje entre nós. E ambos eram cristãos. Naquele tempo, portanto, um cristão que dissesse que quando se morre, morre também a alma, não deixaria de ser considerado cristão! Foi nos primeiros séculos do Cristianismo que se decidiu, aos poucos, como dogma, a separação entre corpo e alma, o que constitui a vitória da tradição greco-romana no Cristianismo. A figura mais importante para que isso acontecesse foi São Paulo, o apóstolo de formação grega, que convenceu Pedro a estabelecer-se em Roma, sede do Império Romano, como chefe da nova comunidade religiosa.

Houve assim – poderíamos dizer – uma racionalização de uma verdade religiosa, racionalização que se tornou fundamental para a história da Idade Média, mas também da Idade Moderna. E a teologia, “ciência sobre Deus”, é sinal desta racionalização. Isso fez com que os teólogos mostrassem que acreditar em Deus não vai contra a razão, mas combina com ela. E também contribuiu para que um filósofo moderno como Hegel dissesse que a modernidade é a definitiva realização do Cristianismo, e não a ruptura com este, conforme costumamos dizer ao apresentarmos a Idade Média como Idade das Trevas."

Características gerais da história da filosofia

 Por Selvino Assmann:



"De acordo com a periodização mais aceita pelos historiadores, a Filosofia é dividida em quatro grandes períodos:

► Filosofia Antiga: do Século VI a. C até o Século V d.C.

► Filosofia Medieval: do Século V d. C. até o Século XIV ou XV.

► Filosofia Moderna: do Século XV/XVI, período da Renascença, passando pelos Séculos XVII e XVIII, e alcançando o período do Iluminismo, Século XVIII e metade do Século XIX.

► Filosofia Contemporânea: da metade do Século XIX até hoje."

O sentido da filosofia

 Por Selvino Assmann:



A palavra filosofia é originariamente grega: philos (amigo) + sophia (sabedoria). Filosofia significa, portanto, amizade pela sabedoria, amor pelo saber. De saída já se poderia dizer: para ser filósofo se deve amar, e não se pode odiar. O filósofo é o amigo, o amante da sabedoria. Lembremos, porém, que amante não é alguém que é dono daquilo ou de quem ele ama, mas é alguém que pretende sê-lo, e não consegue ser dono, nem deve ser dono. Quando se possui o objeto amado (coisa ou pessoa), o amor acaba. Assim, filósofo é quem, como já dissemos, procura chegar ao fundamento último, à essência ou à raiz das coisas e dos problemas.

A concepção da filosofia como procura amorosa da verdade, procura da compreensão da realidade, pode ser atribuída a Sócrates, como veremos no final da Unidade 1, quando apresentaremos e discutiremos as duas concepções de filosofia, a de Sócrates, presente no livro de Platão chamado O Banquete, e a de Platão, presente no mais famoso livro dele, A República.

A busca da verdade está vinculada à aposta e ao desejo de organizar a vida individual e social ou política de maneira mais objetiva, sólida e permanente. E isso se faz fundamentando a verdade na razão, e não em alguma crença ou alguma opinião interessada ou interesseira. É importante insistir nisso para não pensarmos que a filosofia existiu sempre, ou que ela seja uma invenção casual de algum gênio, e não uma criação que se inscreve num contexto histórico favorável a tal saber.


Filosofia é, pois, um esforço para resolvermos de maneira nova os problemas enfrentados na vida em sociedade.

Hegel, um dos grandes pensadores modernos, irá escrever no Século XIX que os gregos inventaram a filosofia por terem sido o primeiro povo que, ao tentar resolver seus problemas, o fez como se estivesse resolvendo os problemas de todos os seres humanos, de todos os povos, para todos os tempos. É isso que caracteriza a razão como fundamento da objetividade do conhecimento, de um saber objetivo e neutro, de um saber com validade universal. Portanto, não é a ciência, como tantas vezes se pensa, o primeiro conhecimento objetivo, neutro e universal da realidade, mas é a filosofia que teve por primeiro esta pretensão, sendo ela, por isso, a raiz da ideia moderna de ciência.

Especialista no estudo do pensamento antigo, Jean-Pierre Vernant (2002) afirma que os gregos inventaram a filosofia não simplesmente para satisfazerem uma curiosidade de entender as coisas, como dizia Aristóteles, mas para resolverem um problema prático, ético e político.

E qual é este problema? Responder às seguintes perguntas: como encontrar uma solução segura e definitiva para os problemas políticos? Como encontrar um jeito para que se estabeleça uma ordem, uma harmonia, a justiça, na convivência humana, e para que a solução valha não apenas para aquela ocasião, mas para todas as ocasiões e para todos os povos?

Diante desse problema, aparece a extraordinária solução grega, que constitui, como dissemos, o nascimento da filosofia e da ciência como tal: para resolvermos com segurança e vigor os problemas devemos encontrar um fundamento sólido. Este fundamento sólido é a razão, que está presente na realidade, na natureza, mas também no ser humano.

Ao invés de fundamentar as soluções dos problemas éticos e políticos nos sentidos (audição, olfato, tato, visão), nos sentimentos mutáveis, nos interesses de grupo ou pessoas, nas opiniões das pessoas, opiniões que mudam, se busca encontrar uma solução firme, eterna, imutável, sólida, objetiva, neutra, universal, que valha não pra mim, mas para todos os seres humanos. E esta solução está na razão, que é única, que funciona em tudo e em todos os seres humanos do mesmo jeito, e por isso, se formos fiéis à razão, chegaremos a uma verdade segura, assim como a desejamos.

Dissemos que a filosofia é grega, portanto ocidental. Por isso, por mais que haja uma sabedoria oriental, por mais que alguém possa valorizar mais a cultura oriental, esta não deveria ser chamada de “filosofia oriental”, pois a cultura do Oriente se fundamenta em dois princípios que nunca coincidem, que nunca deixam de ser contrários: o Yin e o Yang. O Yin é o princípio feminino passivo da natureza, enquanto o Yang é o princípio masculino ativo na natureza. Por isso, convém dizer que a filosofia só existe a partir da Grécia antiga, pois só a partir daí se consegue ver as coisas como uma unidade, como algo compreensível pela razão, enquanto que para o oriental isso nunca é possível.

De fato, a filosofia tem como princípio e característica a unidade da realidade, a unicidade do fundamento, a unicidade da razão. Na filosofia sempre buscamos e acabamos afirmando um princípio único, e só por isso também será possível afirmarmos que há um cosmos, ou seja, uma ordem. Não se trata de dizer que a sabedoria oriental é melhor ou pior do que a filosofia, que é a sabedoria ocidental, mas se trata de assinalar que são saberes diferenciados e incompatíveis. Isso é importante para termos clareza e entendermos melhor a distinção entre Oriente e Ocidente, e também para tentarmos compreender o que levou o Ocidente a ser vitorioso sobre o Oriente, pelo menos sob certos pontos de vista.

E insistimos: o nascimento da filosofia entre os gregos também é, de certa forma, o nascimento da ciência como tal. Na Antiguidade e na Idade Média praticamente os dois conceitos se equivalem, enquanto ciência e filosofia se baseiam na razão, em contraposição a outros saberes que não partem de uma fundamentação racional, como é o caso da mitologia ou da teologia, que incluem em si, necessariamente,

mutáveis, nos interesses de grupo ou pessoas, nas opiniões das pessoas, opiniões que mudam, se busca encontrar uma solução firme, eterna, imutável, sólida, objetiva, neutra, universal, que valha não só pra mim, mas para todos os seres humanos. E esta solução está na razão, que é única, que funciona em tudo e em todos os seres humanos do mesmo jeito, e por isso, se formos fiéis à razão, chegaremos a uma verdade segura, assim como a desejamos.

Dissemos que a filosofia é grega, portanto ocidental. Por isso, por mais que haja uma sabedoria oriental, por mais que alguém possa valorizar mais a cultura oriental, esta não deveria ser chamada de “filosofia oriental”, pois a cultura do Oriente se fundamenta em dois princípios que nunca coincidem, que nunca deixam de ser contrários: o Yin e o Yang. O Yin é o princípio feminino passivo da natureza, enquanto o Yang é o princípio masculino ativo na natureza. Por isso, convém dizer que a filosofia só existe a partir da Grécia antiga, pois só a partir daí se consegue ver as coisas como uma unidade, como algo compreensível pela razão, enquanto que para o oriental isso nunca é possível.

De fato, a filosofia tem como princípio e característica a unidade da realidade, a unicidade do fundamento, a unicidade da razão. Na filosofia sempre buscamos e acabamos afirmando um princípio único, e só por isso também será possível afirmarmos que há um cosmos, ou seja, uma ordem. Não se trata de dizer que a sabedoria oriental é melhor ou pior do que a filosofia, que é a sabedoria ocidental, mas se trata de assinalar que são saberes diferenciados e incompatíveis. Isso é importante para termos clareza e entendermos melhor a distinção entre Oriente e Ocidente, e também para tentarmos compreender o que levou o Ocidente a ser vitorioso sobre o Oriente, pelo menos sob certos pontos de vista.

E insistimos: o nascimento da filosofia entre os gregos também é, de certa forma, o nascimento da ciência como tal. Na Antiguidade e na Idade Média praticamente os dois conceitos se equivalem, enquanto ciência e filosofia se baseiam na razão, em contraposição a outros saberes que não partem de uma fundamentação racional, como é o caso da mitologia ou da teologia, que incluem em si, necessariamente, uma crença ou a fé. na modernidade é que foi estabelecida mais claramente uma distinção entre filosofia e ciência.

A filosofia continua mantendo como característica a pretensão de conhecer o todo como tal, o estudo dos “porquês”, enquanto a ciência (moderna) nasce e se consolida como o conhecimento da realidade a partir do estudo das partes e enquanto estudo do “como” da realidade.



À ciência, por exemplo, não interessa saber por que existe uma lei natural, mas qual é tal lei, e como a realidade funciona de acordo com esta lei. Mas interessa à filosofia perguntar por que há leis, quais os princípios destas leis. A ela interessam as causas últimas, e não a causa mais imediata, como faz a ciência. Esta forma de conhecer é bastante recente, tendo cerca de quatrocentos anos, com a contribuição importante de Copérnico, Galileu, Bacon e Newton. Esta ciência nasceu com a pretensão de permitir ao ser humano ter um controle prático da natureza, um domínio sobre ela, para que o ser humano se torne senhor da natureza e senhor de si mesmo. Conhecendo a natureza, o ser humano liberta-se dela, e pode dispor dela para seu próprio interesse. É o que expressa a conhecida frase de Francis Bacon: “saber é poder”. Esta forma de conhecimento possibilita um conhecimento sistemático e seguro, com a formulação de leis (naturais ou sociais), permitindo dessa maneira um agir mais seguro para os seres humanos. Pode-se assim romper com crenças e práticas supersticiosas, afastando temores brotados da ignorância, vencendo normas tradicionais de conduta e resolvendo novos problemas. Por isso, a ciência é, sobretudo, um método de investigação, uma lógica geral empregada para garantir uma certeza maior e até infalível, uma objetividade, uma imparcialidade ou neutralidade, para estabelecer melhor uma relação entre causas e efeitos, em suma, para responder de forma mais precisa às perguntas formuladas pelos estudiosos.

Antes de procurar definir melhor o que é a filosofia, vale a pena repetirmos que existem várias formas de conhecimento humano. E não podemos esquecer, além das formas já citadas (mitologia, teologia, ciência, Filosofia), o conhecimento mais comum, chamado em geral como “senso comum”. É o conhecimento que recebemos de uma geração para outra, e que nasce do esforço que os seres humanos fazem normalmente para resolver os problemas práticos e imediatos que surgem no dia a dia (por exemplo, formas de organizar a vida comunitária, formas de sobreviver frente ao clima e frente à natureza, como fazer habitação, vestuário, plantio, colheita, conservação de produtos, alimentação, cuidado com saúde, e, mais recentemente, uso da técnica etc.). Por exemplo, o camponês sabe plantar e colher segundo hábitos e normas que aprendeu dos pais, usando técnicas herdadas de seu tempo e de sua comunidade, e hoje aprendemos a usar o carro ou outros meios técnicos a partir do ensino passado por quem já o faz. Isso acontece de maneira espontânea e prática, não de forma rigorosa e sistemática, conforme ocorre com o conhecimento científico. Pelos exemplos também percebemos que o senso comum muda historicamente por influência do saber científico e tecnológico. Assim, o senso comum é, sobretudo, um saber fazer, mais do que um saber puramente teórico, sem que se conheçam os motivos pelos quais algo se faz assim e não de outro modo. Por isso, o senso comum tem a ver com uma crença, embora não se trate de uma crença, mais teórica, que repercute na vida das pessoas através de outra forma de conhecer, que é a crença religiosa, pela qual os seres humanos definem o sentido da vida, e aquilo que eles devem fazer para viver melhor ou para ter uma vida feliz depois da morte.


Mesmo que ao senso comum pertençam elementos do saber científico, da teologia, da mitologia e da própria filosofia, na medida em que tais saberes se tornaram comuns no comportamento cotidiano das pessoas e nas relações entre elas, e mesmo que o senso comum seja, por conseguinte, o saber mais presente na existência de cada um de nós, isso não impede que devamos distinguir entre os saberes. E por isso insistimos em definir a filosofia.

Todos sabem, inclusive os matemáticos, o que é a matemática. Todos os químicos concordam com a definição da química. O mesmo acontece, mais ou menos, com os biólogos, os físicos, os médicos, os engenheiros, os sociólogos, os historiadores, os psicólogos. Mas, ao contrário do que acontece normalmente com cada uma das ciências naturais ou humanas, percebemos que há praticamente uma definição para cada filósofo ou cada doutrina filosófica. Esta pluralidade de definições da filosofia, mesmo que todas mantenham a ideia de se tratar de uma tarefa executada racionalmente, não só serve para suscitar em nós uma perplexidade ou uma insegurança, mas também nos convida para que também nós sejamos mais críticos com qualquer doutrina ou verdade que nos for apresentada. E com isso também nós nos tornamos mais racionais, ao mesmo tempo em que perceberemos melhor o alcance e os limites da própria razão. Neste sentido, há motivos para continuar afirmando como o sábio Sócrates: que o ato de filosofar em última instância nos leva a perceber que sabemos pouco, ou então, que quanto mais pensamos, mais percebemos o limite de nosso conhecimento. Mas para se saber que sabemos pouco é indispensável estudar e pensar muito. Isso, aliás, também acontece entre os cientistas: em geral os grandes cientistas são os que mais reconhecem a precariedade do conhecimento científico, enquanto os cientistas medianos ou medíocres tendem a se apresentar como gênios. Em geral, quem pensa pouco e sabe pouco, imagina saber muito.


Platão, um dos maiores filósofos de todos os tempos, reconhece (e o faz em duas ocasiões!) que seu mestre Sócrates é muito mais sábio do que ele. E a prova apresentada por Platão para sustentar isso é bem surpreendente: ele diz que Sócrates é mais sábio porque nunca escreveu um livro ou um artigo! Sócrates nunca se considerou capaz ou no direito de fixar uma verdade por escrito. Isso nos levaria a dizer hoje – e não seria apenas em tom de brincadeira! – que Sócrates é um trabalhador intelectual “improdutivo”!

Se a filosofia, por um lado, é uma atitude diante dos acontecimentos e diante da vida em geral, por outro é também um campo do saber humano, ao lado das ciências, sociais e naturais, da tecnologia, da teologia, da mitologia, do senso comum. Por mais que ela não possa ser vista como um determinado conteúdo (não tem sentido dizer “a filosofia afirma que. ”), pode-se afirmar que

há “filosofias” de períodos históricos diferentes (Filosofia Antiga, Medieval, Moderna e Contemporânea), “filosofias” de perspectivas diferentes (Filosofia Grega, que se confunde com Filosofia Antiga,bFilosofia Cristã, que em geral se identifica como Filosofia Medieval) e “filosofias” de países diferentes (Filosofia Alemã, Francesa, Italiana, Inglesa, Norte-americana...). Por fim, fala-se da “filosofia” de cada filósofo (Filosofia Cartesiana, Kantiana, Platônica, Tomista, Marxiana, e assim por diante)."

Especificidade do conhecimento filosófico

 Por Selvino Assmann:



"Vamos insistir ainda mais em compreender o que é a filosofia, embora possamos afirmar que só sabe bem o que é filosofar quem realmente o faz. Com a pensadora brasileira Marilena Chauí, que nos serve de apoio para várias observações feitas nestas páginas, podemos dizer que, do ponto de vista mais específico, a filosofia se apresenta com quatro definições gerais:

► em primeiro lugar, falamos de visão de mundo de um povo, de uma cultura. Visão de mundo é um conjunto de ideias, de valores e de hábitos práticos de um povo, que fazem com que se defina uma identidade do povo. Mas definir assim a Filosofia nos faz confundi-la com cultura, o que não convém;

► em segundo lugar, identifica-se a filosofia com a sabedoria de vida, ou como “filosofia de vida”. Neste caso provavelmente incluiríamos como “filosofias” o Budismo, o Cristianismo, e não conseguiríamos distinguir entre filosofia e religião, o que também não convém;

► em terceiro lugar, filosofia é esforço racional, sistemático, rigoroso, para conceber o Universo como uma totalidade ordenada e dotada de sentido (CHAUÍ, 1995, p. 16). E esta definição corresponde mais claramente com a História da Filosofia. Assim conseguimos perceber a diferença entre religião e filosofia. Aquela tem por base a fé, pela qual se aceitam verdades não demonstráveis e que tantos considerarão até mesmo irracionais. Claro que isso não significa que, sob todos os pontos de vista, as verdades de fé não sejam aceitáveis, ou até mesmo razoáveis, como tentou fazer um pensador da qualidade de Tomás de Aquino, que se esforçou por mostrar que as verdades cristãs não eram contrárias à razão;
e

► em quarto lugar, a filosofia é admitida como fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas (CHAUÍ, 1995, p. 17): ela preocupa-se costumeiramente com os princípios do conhecimento (por exemplo, do conhecimento científico, o que chama- mos epistemologia ou teoria do conhecimento científico), com a origem, a forma e os conteúdos dos valores éticos, políticos e estéticos.


Assim, a filosofia é reflexão, é crítica, e é análise. Mas isso não a torna sinônimo de ciência, mas uma reflexão crítica sobre a ciência; não a torna uma religião, mas uma análise crítica sobre o sentido da experiência religiosa e sobre a origem das crenças; nem a identifica com a psicologia, com a sociologia, a história ou a ciência política, por mais que estas ciências do fenômeno humano tenham parentesco histórico com ela. Neste caso, se costuma dizer que as ciências humanas (e as ciências em geral) estudam “o quê” e o “como” dos fenômenos, enquanto a filosofia estuda o “porquê” e o “que é”, os conceitos."

Atitude filosófica

 Por Selvino Assmann:


"Embora a filosofia também consista em um determinado conteúdo de conhecimentos acumulados durante dois mil e quinhentos anos, que resultaram em uma multiplicidade de fragmentos e de livros, podemos dizer que filosofar é ter uma atitude filosófica. Mesmo que digamos que “de filósofo e louco todos têm um pouco”, de fato são poucos os que têm esta atitude, exigindo-se para isso o conhecimento dos textos da História da Filosofia, mas também a criação do hábito de pensar de maneira rigorosa e crítica. Falamos, portanto, aqui da Filosofia que quebra com o nosso saber prático do dia a dia, e que nem sempre nos agrada, pois à primeira vista parece ser perda de tempo ou incômodo exagerado com as coisas, deixando-nos, quem sabe, angustiados demais, para além do conveniente.

Filósofo é quem não se contenta com as coisas óbvias. É quem toma distância em relação ao que acontece, para entender melhor o que acontece.

O antropólogo educador brasileiro Darcy Ribeiro (1922- 1997) repetiu que pensar é questionar o óbvio. Assim, o filósofo parece desligado da realidade, vivendo nas nuvens, em coisas abstratas, distraído, perdido ou aparentemente alheio aos problemas concretos da vida. Reconhecemos também, em geral, que a atitude filosófica se confunde com uma atitude crítica, que – diga-se de passagem – não devemos confundir com “falar mal”, mas identificar como sendo a capacidade de perceber melhor o que estamos querendo conhecer, e aí podemos perceber se isso é um mal ou um bem. Neste contexto, o filósofo é inimigo mortal de qualquer fanatismo, de qualquer dogmatismo.


Como exemplo da visão depreciativa da filosofia temos a história do antigo sábio grego chamado Tales que, ao olhar para o céu a fim de entender os movimentos das estrelas, acabou caindo num poço. Ou com uma definição, ou ditado popular italiano, bastante conhecido: “a Filosofia é a ciência com a qual ou sem a qual tudo continua tal e qual!”.


Por mais que haja uma visão pejorativa a respeito dos filósofos e da filosofia, também é verdade que nunca se desconheceu a importância histórica e teórica da atividade filosófica. Não precisamos de muito para perceber que só povos historicamente importantes apresentam grandes pensadores. Por que isso? Mais ainda: podemos facilmente constatar que só existem grandes pensadores em momentos históricos importantes da vida de um povo. Um exemplo disso é o fato de haver grandes pensadores na Itália precisamente na Renascença, e não tanto depois, ou o fato de haver grandes filósofos na Inglaterra e na França dos Séculos XVII e XVIII, e não antes nem depois. Ou que aparecem filósofos importantes nos Estados Unidos a partir do Século XX, e não antes. Nesta mesma perspectiva, poder-se-ia dizer que o Brasil e os demais paises da América Latina até hoje nunca proporcionaram um grande filósofo nem sequer uma importante doutrina filosófica.

Um povo que não tem um grande filósofo ou filosofia não é autor de sua própria história, mas simplesmente imitador da história de outros povos ou culturas.

Todo filósofo é, por assim dizer, um porta-voz consciente de um povo, e nunca apenas um gênio tomado isoladamente. Hegel o dizia de maneira melhor: cada filosofia é o próprio tempo em pensamento, e cada filósofo é, portanto, alguém que pensa o próprio tempo a partir da sociedade em que vive. Filósofo não inventa a realidade, mas interpreta a realidade em que vive. Ele eleva a um conceito o que é real.

Claro que podemos ter filósofos que privilegiam uma visão mais conservadora do próprio tempo ou do próprio povo e outros - talvez mais raros na História da Filosofia – que acentuam a crítica à própria situação e por isso são mais utópicos. Mas nenhum pensador se tornou importante ou se tornou um clássico deixando de se preocupar com a própria situação, com as raízes do que acontece. Por isso, se pode afirmar que toda filosofia é e deve ser radical, pois não se contenta em ficar na superfície das coisas, mas procura ir às raízes (por isso, radical), busca desvendar os porquês das coisas.

O filósofo faz perguntas do tipo: o que é a realidade? Como a realidade é? Por que a realidade é assim? Ele procura a essência, o significado e a origem do que quer conhecer. Essência é aquilo que torna uma coisa aquilo que ela é. Por isso toda definição sempre tem a ver com a essência. Por exemplo, para definirmos o ser humano como “animal racional”. Neste caso, a essência humana consiste em ser animalidade e racionalidade. Não é, pois, da essência humana, ser da raça branca ou amarela ou negra, assim como não pertence à essência de uma flor o fato de ser amarela ou vermelha.

O filósofo reflete. Falar de reflexão lembra o espelho no qual a gente se reflete. Pois bem: filosofar é refletir. É um movimento de volta sobre si mesmo. Refletir é pensar o próprio pensamento. Refletir é, por exemplo, tomar o próprio eu como objeto de compreensão. Sujeito é quem é capaz de ser objeto para si mesmo. É isso que distingue o ser humano dos animais, que são incapazes de se verem como objeto...

É esta capacidade humana que nos distingue dos seres animais: se dissermos que os animais conhecem, os seres humanos conhecem que conhecem, sabem que sabem. Por isso somos capazes de rir de nós mesmos. De toda forma, quem prefere uma vida tranquila, uma vida mais grudada ao cotidiano, ao terra-a-terra, fica longe da Filosofia. E quem quer alcançar maior profundidade, quem gosta de chegar às raízes, ser mais radical, vai precisar dela, mesmo que isso não lhe venha a trazer certezas ou tranquilidade... e talvez nem felicidade.

O pensador alemão contemporâneo Theodor Adorno disse que só se põe a filosofar quem suporta a contradição, o conflito. Quem gosta de tranquilidade, não vai querer fazê-lo.

Talvez devamos afirmar que o filósofo é quem assume correr o risco de viver mais inseguro, ter cada vez mais perguntas, e não respostas.

Esta atitude filosófica deve ser claramente separada da mera opinião ou dos gostos pessoais. Não é filosófico dizer “eu acho que”, “eu gosto de”... A filosofia estabeleceu-se como saber lógico, rigoroso, concatenando as afirmações entre si, superando, como dissemos, o senso comum."

O que é filosofia?

 Por Selvino Assmann, em Filosofia e Ética:



"No seu sentido mais comum, o substantivo filosofia ou o verbo filosofar tem a ver com pensamento ou com o ato de pensar.

Filosofar é pensar sobre o que nos acontece, sobre o sentido do que nos acontece ou sobre o significado da vida humana ou da vida biológica como tal. Diz-se assim que se tem uma “filosofia de vida”. Mas este significado do termo certamente é muito amplo e vago. Até mesmo pensar não é a mesma coisa para todos.

Há um sentido menos comum, em que filosofar significa saber viver, ou melhor, saber viver com sabedoria, de acordo com uma doutrina, com uma Filosofia. Assim há, por exemplo, sabedorias diferentes daquela ocidental. Por isso se fala dos sábios orientais Confúcio e Lao Tsé (China), Buda (Índia) e Zaratustra (Pérsia), mas as suas doutrinas ainda estão vinculadas à religião, e não caracterizadas por uma exclusiva racionalidade.

Existe, porém, um sentido mais específico e preciso de filosofar: procurar e/ou encontrar a verdade por meio de uma atividade racional. E a gente encontra a verdade porque precisa e deseja saber a verdade. E a verdade é necessária para viver. Mas nem todas as perguntas que fazemos são perguntas filosóficas, como nem todas as respostas são respostas filosóficas. Não é “filosófico” saber “que dia é hoje?”, mas é filosófico perguntar “o que é o tempo?” O que é a verdade? O que é a mentira? O que é a liberdade? O que é a razão? São todas perguntas filosóficas. E sabemos que nem todos estão acostumados a fazê-las e tampouco consideram que sejam perguntas importantes."